«(...) os deuses que habitam as nossas casas não são calados como os do Olimpo; não são de bronze ou de marfim, mas têm muito oiro e por isso mesmo têm também muito que dizer, e dizem-no por vezes copiosamente.» Raul Lino, Casas Portuguesas, 1954.

O dia está luminoso de Mora, mas eu estou no Porto, no Museu de Serralves; e, no frio leve da brisa cortada pelos vértices do edifício, percorrem sons de prazer de uma mulher... Malditas paredes brancas!, que todos gostaríamos de ver o que se passa lá dentro, ainda que saibamos que nada se passe. A verdade, no entanto, é que dentro de uma casa se passa o mundo... (...) Voltemos à Terra e a um pedaço dela a que, por hábito longínquo, se decidiu chamar Portugal, que é também como uma casa igual a tantas outras, excepto que a esta, os que nela habitam têm a tendência de lhe atirar pedras como se tivesse telhado de vidro. O problema é que, nalguns dias, a casa portuguesa com certeza tem telhado de betão, e, noutros, nem telhado de vidro tem, é uma casa destelhada, onde as gaivotas defecam, para tornar este texto mais marinho, já que temos adquirido esse gosto nesta casa de praia há largos séculos. Dizem-nos os entendidos que a casa popular portuguesa já nem sequer é popular, é tradicional. Na minha aldeia já não há casas tradicionais, apenas resistiu um solar setecentista e os emigrantes ocuparam o resto com as suas maisons de rêves. Os que por lá ficaram, e não foram a salto, aprenderam com eles a destruir o que a velha casa de granito de seus pais tinha de mais harmonioso e humano, e construiram por cima do antigo que a tantas gerações bem serviu. (Raul Pereira in Casa Veduta 2013)